Novo coronavírus já começa a afetar dia a dia da economia brasileira

Depois de derreter o valor de mercado de empresas por todo o mundo em fevereiro, a epidemia do coronavírus começa a atingir a produção de bens e serviços. No Brasil, a fábrica de celulares da LG em Taubaté (SP) anunciou uma parada por 10 dias. A companhia aérea Latam suspendeu os voos entre São Paulo e Milão. No setor de eletroeletrônicos, mais da metade das empresas apresentam problemas e algumas indicam redução na produção do primeiro trimestre, segundo a Associação Brasileira da Indústria de EletroEletrônicos (Abinee). Na indústria têxtil, quase um quarto das empresas perceberam o impacto do coronavírus.

“Além da falta de componentes, o dólar está caro e pode ter repasse para preços”, afirmou o economista sênior da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), Fabio Bentes No turismo, a demanda pelo exterior desabou. “Isso pode até beneficiar o mercado interno a curto prazo, mas se o problema se agravar, vai comprometer parte do setor”, ressaltou Bentes.

O presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas do Distrito Federal (CDL-DF), José Carlos Magalhães Pinto, disse que alguns segmentos sentem a falta de peças. Segundo ele, o fôlego do setor de refrigeração, por exemplo, vai até 10 de abril se não chegarem componentes novos. “O segmento está entre os mais afetados, junto a compressores, peças de informática e componentes para telefone celular”, enumerou.

Não à toa, nesta segunda-feira (2/3), a A LG Electronics do Brasil emitiu comunicado sobre paralisação. “Devido ao surto do coronavírus que tem provocado o desabastecimento de peças, a empresa fará uma parada de 10 dias na produção, a partir de 2 de março, na unidade fabril de celulares, localizada em Taubaté. A LG afirma que está monitorando a situação de perto com o objetivo principal de minimizar o impacto para nossos clientes e colaboradores em todo o mundo”, informou a empresa.

Na mesma toada, a Latam Brasil suspendeu entre 2 de março e 16 de abril os sete voos semanais  entre São Paulo e Milão. “A companhia espera que a situação se normalize o mais brevemente possível pelo bem-estar e saúde de todos os seus passageiros e tripulantes” explicou Jerome Cadier, CEO da companhia. O executivo enfatizou que “a Latam se compromete com os clientes afetados por esta restrição, ajudando-os com a remarcação sem multa e as opções de reembolso completo”.

Levantamento da Abinee apontou que 57% das empresas associadas estão com problemas no recebimento de materiais, componentes e insumos provenientes da China, aumento de 5 pontos percentuais ante pesquisa realizada há duas semanas. Segundo o presidente executivo da Abinee, Humberto Barbato, o momento é delicado. “Devemos ter diversas paralisações daqui para a frente”, afirmou. Ele disse, no entanto, que não há risco de falta de produtos acabados, como celulares e computadores, no mercado brasileiro. “Dispomos de produção local desses produtos”, ressaltou.

Alerta

As empresas alertaram, porém, que a produção do primeiro trimestre deverá ficar 22% abaixo da projetada. Barbato avaliou que as dificuldades “acendem um sinal de alerta” para toda a indústria brasileira que depende de materiais e componentes provenientes de um único mercado, a China.

“Passada a tormenta maior, vamos ter que reavaliar a nossa cadeia de suprimentos para evitar a ‘chinadependência’”, observou o presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), Fernando Pimentel. A Abit também fez uma pesquisa entre empresários do setor, e os resultados mostraram que 22,6% sentem efeitos do coronavírus na atividade.

Há risco de as encomendas de roupa pronta não embarcarem, conforme Pimentel. “Na tecelagem, ainda temos insumos, mas é um segmento que pode sofrer choque de oferta. Nos produtos químicos, como corantes, a situação vai se agravar. Mas ainda não houve interrupção de produção, porque nossa indústria é uma das cinco maiores do mundo, e temos notícias de que alguns varejistas estão voltando a comprar no mercado doméstico”, comentou.

Crescimento global será menor 

Em relatório divulgado nesta segunda-feira (2/3), a OCDE explicou que só a economia chinesa deve crescer 0,8 ponto percentual menos que o esperado em 2020,  com expansão de 4,9%, e não mais de 5,7%. A queda vai impactar o crescimento global. Segundo a OCDE, a China já representa cerca de 20% da indústria, 17% do PIB, 12% do comércio e quase 8% do investimento direto estrangeiro que circula pelo mundo hoje. Além disso, é a emissora de mais de 8% dos turistas globais. E a consumidora de aproximadamente 50% da demanda mundial por commodities como alumínio, cobre, níquel e zinco.

A OCDE também reviu para baixo o PIB do G20 (2,7%) e o de países como Estados Unidos (1,9%), França (0,9%), Alemanha (0,3%), Japão (0,2%), Índia (5,1%) e México (0,7%). Para a Itália, que tem um dos piores quadros do coronavírus fora da China e está vendo as receitas turísticas despencarem, a projeção da OCDE é de estagnação.

A organização frisou que essas projeções correspondem a um cenário otimista, em que a epidemia atinge o pico neste primeiro trimestre na China e provoca apenas “surtos moderados e contidos” nos demais países. Neste cenário, a China pode até reverter as perdas deste início de ano a partir do último trimestre, chegando a um crescimento de 6,4% em 2021. Caso o cenário seja pior, com o avanço mais forte da doença fora da China, as revisões podem ser revistas novamente para baixo.

Brasil

A OCDE não revisou a perspectiva de crescimento para a economia brasileira em 2020. Mas isso só não aconteceu porque a organização já projeta alta abaixo de 2% para o Brasil. A perspectiva é de 1,7%, bem abaixo das projeções do governo federal (2,4%) e do mercado financeiro, que voltou a reduzir a previsão de crescimento brasileiro neste ano. No Boletim Focus divulgado nesta segunda-feira (2/3) pelo Banco Central, a projeção foi revista de 2,2% para 2,17%. É a terceira queda consecutiva do indicador, que estava em 2,3% um mês atrás.

 

Governos animam mercados

Depois de acumular uma perda de 10% em 2020, o Ibovespa, principal índice de lucratividade da Bolsa de Valores de São Paulo (B3), teve o segundo dia de resultado positivo e subiu 2,36%, nesta segunda-feira (2/3), chegando aos 106.625 pontos. O dólar andou de lado, com leve alta de 0,09%, e terminou o dia cotado a R$ 4,485. O bom humor dos investidores refletiu a recuperação do mercado externo, após o anúncio de que os presidentes dos principais bancos centrais do mundo vão se reunir em teleconferência para avaliar como reagir ao estrago que o coronavírus vem provocando na economia global, informou André Perfeito, economista-chefe da Necton Investimentos. “Isso animou bolsas e ativos”, explicou.

As empresas listadas na B3, que perderam muito valor de mercado desde o fim do carnaval até a sexta-feira passada, ganharam fôlego. As ações ordinárias da Petrobras subiram 3,50%, e as preferenciais, 4,70%. Os papéis da Vale tiveram alta de 4,63%. Até mesmo os ativos das empresas aéreas, um dos setores que mais se ressentem com a epidemia, fecharam no positivo: alta de 1,69% nas ações da Azul e de 1,99%, nas da Gol.

Para William Teixeira, head de renda variável da Messem Investimentos, o mercado já precificou o que de pior podia acontecer. “Como os dados de produção da China estão mais fracos, os governos começaram a se mexer, na intenção de cortar juros e afrouxar a política monetária para dar ânimo à economia. A China deve injetar dinheiro e o Japão, também. Isso deixa o mercado mais tranquilo”, avaliou.

“Na semana passada, o presidente do Fed, Jerome Powell, disse que faria qualquer coisa para evitar o pior. Hoje (nesta segunda-feira — 2/3), o Japão também anunciou medidas adicionais. Como lá fora melhorou, o Brasil seguiu a tendência”, disse e economista-chefe da SulAmérica Investimentos, Newton Rosa.

Balança recupera saldo positivo 

O coronavírus não afetou a balança comercial em fevereiro. Segundo o Ministério da Economia, o  país fechou o mês com superavit de US$ 3,1 bilhões — o terceiro melhor resultado para o período desde1989, início da série histórica.  O desempenho reverteu o deficit de US$ 1,74 bilhão de janeiro e, com isso, a conta de comércio acumula, no ano, passou para um saldo positivo de US$ 1,36 bilhão.

No mês passado, as exportações cresceram 15,5% em relação a fevereiro de 2019, chegando a US$ 16,35 bilhões. As importações somaram US$ 13,26 bilhões, com alta de 16,7%, puxadas pela maior demanda por bens de capital, o que pode ser um sinal de que o empresariado nacional está voltando a investir.

Segundo o subsecretário de Inteligência e Estatísticas de Comércio Exterior do Ministério da Economia, Herlon Brandão, os dados de fevereiro devem ser vistos com cuidado. Ele explicou que os contratos do comércio exterior são fechados com bastante antecedência. Metade da safra da soja, por exemplo, já está vendida e será exportada, segundo ele. Por isso, o impacto do coronavírus deve ser sentido mais para a frente pela balança comercial — possivelmente nos dados de março, já que os navios brasileiros levam ao menos 20 dias para chegar à China.

O aumento das exportações refletiu a alta das vendas de petróleo, que cresceram 63,5%, chegando a US$ 2,20 bilhões, mesmo com a redução de 7,3% dos preços internacionais do produto. Também contribuíram para o saldo positivo da balança as vendas de produtos como minério de cobre, óleo combustível, ferro-gusa, algodão bruto e carne, além da soja. E boa parte dessas exportações foram para a China, apesar de a economia chinesa ter desacelerado por conta da epidemia do coronavírus.

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